Existe uma diferença importante entre a peça que é descartada e a peça que é consertada, e ela não é a que parece.
A peça descartada tem destino visível. Vira sucata, alguém dá baixa, o material entra como perda e o valor aparece em algum lugar. Já a peça que volta para a linha, é ajustada e segue viagem não gera registro nenhum. O tempo gasto nela se mistura com o tempo produtivo do turno, o material extra entra no consumo normal, e no fim do mês nada naquele relatório diz que aquilo aconteceu.
É por isso que o refugo costuma ser discutido em reunião e o retrabalho não. Um deixa rastro, o outro não deixa.
Por que o conserto custa mais do que parece
Quando uma peça é recuperada, a empresa paga por ela duas vezes, e a segunda conta é maior.
O tempo da máquina que fez de novo. Aquela hora não produziu peça nova. Ela refez uma que já tinha sido paga.
O tempo da pessoa. Quem parou para ajustar não estava fazendo outra coisa, e em geral é alguém mais experiente, porque o conserto exige quem entende.
O material a mais. Nem sempre é muito, mas existe, e entra no consumo como se fosse produção normal.
O que deixou de ser produzido. Esse é o maior e o menos lembrado. Enquanto a linha refazia, ela não estava produzindo o pedido seguinte, e isso pode significar atraso de entrega ou hora extra no fim da semana.
Some os quatro e compare com o valor da peça jogada fora. Muitas vezes a peça recuperada saiu mais cara que o refugo que ninguém quis ter.
Onde esse custo se esconde
Pergunte ao financeiro quanto o retrabalho custou no mês passado e ninguém vai conseguir responder, porque esse número não existe com esse nome.
Ele está diluído em outras rubricas que já existiam: custo de produção, consumo de material, horas extras. Tudo isso continua parecendo normal, porque cada linha isoladamente parece normal.
E tem um efeito colateral que confunde ainda mais: quando a equipe conserta bem, o problema desaparece dos indicadores. O pedido saiu, o cliente recebeu, a qualidade segurou. Do ponto de vista do relatório, não houve problema nenhum, e a causa continua lá, repetindo todo mês.
Quanto melhor a equipe é em apagar incêndio, mais invisível fica o incêndio.
As causas que mais aparecem
Quando o registro começa a existir, as causas quase sempre caem em um destes grupos.
Especificação ambígua. O desenho ou a ficha permite duas interpretações, e cada turno interpreta de um jeito.
Ajuste de máquina. Equipamento fora de parâmetro produz peça no limite da tolerância, e o problema aparece em lote, não em unidade.
Matéria-prima diferente. Lote novo, fornecedor novo, material com comportamento diferente. É o mesmo mecanismo do consumo que não bate com a ficha.
Falta de combinado sobre o que é aceitável. Essa é a mais comum e a menos discutida. Sem critério escrito, cada pessoa decide por conta própria o que passa e o que volta, e aí o retrabalho vira questão de quem está no turno.
Repare que nenhuma dessas causas é sobre alguém trabalhar mal. São todas sobre informação que falta ou combinado que não foi feito.
Como começar a medir sem atrapalhar a produção
O instinto é criar formulário. Formulário em chão de fábrica, no meio do turno, não é preenchido, e dado preenchido para constar é pior que dado nenhum.
O que funciona é menor.
Escolha um produto ou uma linha. O que mais volta, ou o que mais dói quando volta.
Registre três coisas só: o que aconteceu, quanto tempo levou para resolver e qual era o motivo aparente. Uma linha por ocorrência, no papel mesmo.
Faça isso por quatro semanas. Menos que isso não mostra padrão.
Olhe o acumulado junto com quem opera. Em um mês aparece se é sempre a mesma peça, sempre o mesmo turno, sempre depois de troca de lote.
No fim você tem duas informações que não tinha: quanto tempo o retrabalho come por semana e qual é a causa mais frequente. A segunda é o que resolve; a primeira é o que justifica resolver.
A conversa que precisa acontecer antes
Tem um passo que costuma ser pulado e que determina se o registro vai funcionar: combinar com a equipe para que serve.
Se as pessoas acharem que o registro é para descobrir quem errou, o número vai vir maquiado, e a empresa vai tomar decisão com dado falso. É o mesmo problema do registro de horas em qualquer serviço: no momento em que vira instrumento de cobrança, deixa de ser informação.
A frase que funciona é direta: isso é para descobrir o que está fazendo a peça sair errada, não quem fez. E precisa ser verdade, porque a primeira vez que alguém for cobrado pelo que registrou, o registro acaba.
É esse levantamento que a gente monta no diagnóstico da AXIS: quanto do tempo da sua produção está sendo gasto refazendo o que já foi feito, e qual causa resolver primeiro. Veja as soluções da AXIS ou agende seu diagnóstico, sem compromisso.
Dúvidas comuns
Qual a diferença entre refugo e retrabalho?
O refugo é a peça descartada: tem destino visível, vira perda registrada e aparece no custo. O retrabalho é a peça consertada e aproveitada: o tempo e o material gastos nela se misturam com a produção normal e não aparecem com esse nome em lugar nenhum.
Por que o retrabalho não aparece no relatório?
Porque ele é diluído em rubricas que já existem, como custo de produção, consumo de material e horas extras. Cada linha isoladamente parece normal, e o problema desaparece justamente quando a equipe conserta bem.
O que compõe o custo real de uma peça refeita?
O tempo de máquina que refez em vez de produzir, o tempo da pessoa que parou para ajustar, o material a mais e, principalmente, o que deixou de ser produzido naquele intervalo.
Como começar a medir o retrabalho?
Escolhendo uma linha ou produto, registrando três informações por ocorrência (o que aconteceu, quanto tempo levou, qual o motivo aparente) durante quatro semanas, e analisando o acumulado com quem opera.
Quais as causas mais comuns de retrabalho?
Especificação ambígua, máquina fora de ajuste, matéria-prima de comportamento diferente e ausência de critério escrito sobre o que é aceitável. Nenhuma delas é sobre alguém trabalhar mal.