Pela regra de transição da reforma tributária, o sistema de impostos atual e o novo convivem até 2032. Para o escritório contábil, o peso não está em entender a regra nova. Está em operar as duas ao mesmo tempo, cliente por cliente, com a mesma equipe.
Entender a regra nova é trabalho de estudo, e ele acontece uma vez. Aplicar duas regras em cada cliente é trabalho de rotina, e ele se repete todo mês, por anos.
O que muda, e quando?
O calendário está na Emenda Constitucional 132, que criou a reforma. Em linguagem simples:
2026: ano de teste. A CBS, a nova contribuição federal, e o IBS, o novo imposto de estados e municípios, aparecem com alíquotas pequenas (0,9% e 0,1%), compensáveis com outros tributos.
2027: a CBS passa a ser cobrada de verdade. PIS e Cofins deixam de existir, e o IPI vai a zero, com exceção dos produtos da Zona Franca de Manaus.
2027 e 2028: o IBS segue com alíquota de teste, enquanto ICMS e ISS continuam inteiros.
2029 a 2032: ICMS e ISS diminuem aos poucos, para 90%, 80%, 70% e 60% das alíquotas atuais, enquanto o IBS cresce.
2033: ICMS e ISS deixam de existir.
Ou seja: de agora até 2032, todo cliente do escritório vai ter uma parte da vida no sistema velho e outra no novo.
Por que o peso é de volume, e não de regra?
Porque a regra é uma só, mas cada cliente aplica a regra de um jeito.
O IBS e a CBS valem para todos, mas não têm o mesmo tratamento para tudo. A própria Constituição já prevê alíquota reduzida em 60% para uma lista de bens e serviços, como educação, saúde, medicamentos e alimentos, redução de 100% para alguns casos, e redução de 30% para profissões intelectuais fiscalizadas por conselho profissional. A lei complementar define quais operações entram em cada caso.
Para o escritório, isso quer dizer uma coisa prática: o cadastro de produtos e serviços de cada cliente precisa dizer qual tratamento vale para cada item. Se o escritório tem duzentos clientes, isso não é um estudo. É uma revisão de duzentos cadastros.
E a regra ainda se mexe. Em 2026, a janela da primeira escolha das empresas do Simples sobre os novos tributos foi estendida quando já estava quase no fim. Quem trabalha com prazo e cliente na memória vai sentir cada mudança dessas.
As três frentes de trabalho que crescem
1. O cadastro de cada cliente. É a frente da seção anterior: cada produto e serviço no tratamento certo. Feito uma vez com cuidado, depois só se mantém. Feito às pressas, vira erro na nota e retrabalho todo mês.
2. A decisão do Simples, a cada semestre. A empresa do Simples passou a poder escolher se recolhe IBS e CBS dentro da guia única ou pelo regime regular, e a escolha vale por semestre. A resposta certa muda de cliente para cliente: depende, entre outras coisas, de para quem ele vende e de quanto ele compra. Se o escritório tem oitenta clientes no Simples, são oitenta análises, duas vezes por ano.
3. A pergunta do cliente. Todo cliente vai perguntar a mesma coisa: "e o meu preço, como fica?". Responder um por um, do zero, consome a equipe. Responder com um modelo de simulação, alimentado pelos dados de cada cliente, vira serviço.
Repare que a terceira frente é também uma oportunidade. É o tipo de conversa consultiva que a rotina do escritório raramente deixa tempo para ter.
O que dá para adiantar agora
O pico do escritório começa em dezembro e vai até abril. O que for feito em novembro não disputa espaço com ele.
Mapear a carteira. Uma planilha com uma linha por cliente e quatro colunas: regime tributário, se vende mais para empresas ou para consumidor final, se está em algum setor com tratamento diferenciado, e quanto do faturamento passa por compras que geram crédito. Esse mapa mostra onde está o trabalho, antes que ele apareça.
Separar o repetitivo da decisão. Levantar dados das notas, conferir cadastro, controlar janelas de escolha: isso é repetitivo e pode ter processo. Decidir se o cliente sai ou não da guia única, e explicar o impacto no preço: isso é do contador, e é onde o tempo dele vale mais.
Escolher um cliente de cada tipo. Um do Simples que vende para empresas, um que vende para consumidor final, um do Lucro Presumido. Fazer o trabalho completo nesses três primeiro mostra quanto tempo cada tipo leva, e isso é o que permite planejar o resto.
Rever o combinado de honorário. Trabalho novo e recorrente, por vários anos, não pode entrar sem preço. A conversa é mais fácil antes de o trabalho começar do que depois.
Onde a automação ajuda, e onde não ajuda
Ela ajuda em tudo que se repete por cliente. Montar o perfil de cada um a partir das notas que o escritório já recebe. Conferir se o cadastro está coerente com o tratamento de cada item. Avisar, cliente por cliente, quando uma janela de escolha está abrindo. Preencher o modelo de simulação com os números de cada empresa.
Ela não ajuda na interpretação de regra nova nem na decisão. Se o cliente deve ou não sair da guia única é uma conversa entre o contador e o dono da empresa, e continua sendo.
A conta é simples. Cada hora que a equipe não gasta copiando dado de um lugar para outro é uma hora que sobra para a parte que o cliente paga para ouvir.
Por onde começar
Monte o mapa da carteira nesta semana. Quatro colunas, uma linha por cliente. Ele leva poucas horas e responde à pergunta que vai decidir o próximo ano do escritório: onde a reforma vai pesar, e em quantos clientes.
Se quiser fazer esse levantamento com alguém de fora, é o que a gente faz no diagnóstico: olha a rotina do escritório, mostra o que se repete por cliente e o que dá para tirar das mãos da equipe antes do pico. Agende seu diagnóstico, sem compromisso.
Dúvidas comuns
Meu escritório só atende empresas do Simples. Isso me afeta?
Afeta, e talvez mais do que a outros. A escolha entre ficar na guia única ou recolher IBS e CBS pelo regime regular vale por semestre, e precisa ser analisada cliente por cliente. E os clientes dos seus clientes, quando são empresas, podem começar a perguntar sobre crédito.
Não dá para esperar a regra ficar estável?
O calendário da própria transição vai até 2032. Esperar estabilizar significa esperar anos, com a carteira crescendo e a equipe do mesmo tamanho.
O sistema contábil que eu uso não vai resolver isso?
O sistema vai calcular o que mandarem ele calcular. Quem diz qual tratamento vale para cada item de cada cliente, quem levanta os dados e quem conversa com o cliente sobre a escolha continua sendo o escritório.
Devo cobrar pelo trabalho da reforma?
Trabalho novo e recorrente pede combinado novo. O melhor momento para essa conversa é antes de o trabalho começar, com o cliente entendendo o que vai ser feito por ele.
A equipe já está no limite. Por onde eu começo?
Pelo mapa da carteira, e em novembro. Ele é pequeno, não disputa espaço com o pico, e mostra quais clientes vão exigir mais. Com isso na mão, fica claro o que precisa de processo, o que precisa de gente e o que precisa de preço.